Script – Daniel Herculano

Só mais um blog do BlogueIsso! Blogs

Bastardos Inglórios

outubro14

Segunda Guerra Mundial Pop

Quentin Tarantino é icônico. E todas as características que fizeram seu nome no cinema estão aqui. Um grande astro atuando (Brad Pitt), um até então desconhecido brilhando (Christoph Waltz). Diálogos referenciais? Confere. Homenagem ao cinema? Claro. Capítulos para contar sua história? Sim. Tanto sangue quanto risos? Sem dúvida. Tom irônico e caricatural? Aham. Bastardos Inglórios (Inglorius Basterds, 2009) não ganhou a Palma de Ouro em Cannes, mas justifica todo o barulho que fez por lá, que ainda levou um prêmio dito de consolação, mas não menos merecedor (melhor ator para Waltz). A Segunda Guerra Mundial é campo para destilar sua violência cômica. Não é história é cinema. Maiúsculo e dos bons como há algum tempo não se via.

Durante a ocupação alemã na França, um grupo de soldados judeus americanos – os Bastardos Inglórios do título – liderados pelo tenente Aldo Raine (Pitt) colocam em prática um plano para eliminar o maior número de nazistas possíveis. Depois, ao unir forças à agente secreta Bridget Von Hammersmark (Diane Kruger) buscam acabar com Hitler e os líderes do Terceiro Reich. Paralelamente, a judia Soshanna (Mélanie Laurent) reencontra o algoz de sua família, o Coronel Hans Lada (Waltz), e trama um plano de vingança.

O prólogo arrebatador já demonstra ao que veio. Sem pressa distribui em seus (longos) diálogos não apenas palavras, mas sentimentos e até tensão dramática. Com nuances de western spaghetti – repare no uso incontido das trilhas, dos temas, das paisagens à espera da ação – Tarantino não se cansa de ser cinematográfico. Seu domínio de câmera consegue ser sério, faz travellings, desfila nas salas, passeiam nos cenários e vão até debaixo do assoalho de uma casa (ratos=judeus). Quando quer anda em ritmo de caricatura e mesclando violência com hilariantes seqüências. O diretor e roteirista lembra sempre que estamos assistindo uma obra assinada. Os inserts brincalhões entretêm e até a narração (de Samuel L. Jackson) funciona. Para brincar com a verdade, claro, e exatamente esse é o maior propósito (e mérito) da fita. Então, faz todo sentido.
Destila ironia e divide em capítulos uma sua história, mas dessa vez em ordem cronológica. Não manda recado, explode no ato! O contexto vingança se confunde com a missão (operação Kino) comandada – veja só – por um ex-crítico de cinema que virou oficial (Michael Fassbender). Repare na ponta curiosa de Mike Myers como o comandante que descreve passo-a-passo a missão numa sala que mais parece um cenário de Dr. Fantástico (1964) de Stanley Kubrick. Referencial: cinema!

Como de costume, Tarantino tem o hábito de remover gente das cinzas alguém esquecido ou muito bom que ainda não recebera uma grande chance. E a última opção cai bem para o austríaco Christoph Waltz, soberbo como o Coronel Hans Lada, o Caçador de Judeus. Premiado na TV, aqui recebe seu passaporte carimbado por Tarantino para Hollywood e não desperdiça nem por um segundo. Sua construção é um espetáculo, do começo ao fim. Frio, inteligente e com uma paciência que só ele sabe aonde quer chegar. Provoca tensão com um riso nos lábios e surpreende a cada aparição. Acredite, é um vilão com um carisma admirável.

Brad Pitt – armado de bigodinho retrô-brega, faca e metralhadora – é um obstinado caipira que adora escalpelar nazista e assim acredita na força de sua missão. Seu inglês é rústico (perfeito), mas a graça é total quando arrisca um frouxo e macarrônico italiano. Bizarro e que não deixa de ser cômico nem por um instante. Seus comparsas o acompanham na caricatura, perfeitos, com destaque para Hugo Stiglitz (Til Schweiger, ótimo), um alemão que ama matar nazistas, obrigatoriamente fazendo cara de cachorro raivoso. No clima over há ainda os satirizados Hitler (Martin Wuttke) e Goebells (Sylvester Groth). Todos exagerados e por isso mesmo no ponto. Mas meio de tanta gente de mentira, também do lado nazista o atirador Zoller (Daniel Brühl) é plausível e um personagem interessante e bem explorado.

E quanto as belas mulheres? Quem se sai melhor é Mélanie Laurent. Da fuga desesperada, passando pela divina cena de choro depois de um struedel até seus momentos dignamente cinematográficos dentro do próprio cinema. A charmosa Diane Kruger está bem na pele da espiã com a dubiedade necessária e tem uma ótima piada sobre idiomas e americanos. Um dos (muitos) pontos irônicos da trama, a qual praticamente todos os personagens falam no mínimo duas línguas (incluindo até um mero fazendeiro)… Por isso mesmo a piada contra os americanos é tão real que se torna engraçada.

Bastardos Inglórios tem imagens tensas (cena da taverna), empolgantes (cinema lotado!) e até heróicas (tiroteio na sala de projeção), enquanto a fumaça e o rosto marcam eternamente aquele sequncia na história no cinema. Tarantino literalmente metralha a história com mortes surpreendentes, escalpos para todos os lados, palavrões e (ótimos) diálogos longos, mas tão afiados quanto a faca do comandante Pitt, que marca os nazistas como ninguém. Imperdível, envolvente e adjetivamente um dos melhores do ano. Quentin Tarantino obrigado por tudo, mais uma vez.

NOTA: 9,5

INFORMAÇÕES ESPECIAIS:

O diretor e roteirista Quentin Tarantino venceu a Palma de Ouro em Cannes e o Oscar de roteiro original por Pulp Fiction (1994);

Christoph Waltz venceu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por Bastardos Inglórios, e já está cotado para concorrer ao Oscar 2010, mas como coadjuvante para ter maiores chances;

Outras recomendações com o elenco de Bastardos Inglórios:
Brad Pitt indicado ao Oscar e Globo de Ouro por O Curioso Caso de Benjamin Button (2008);
Diane Kruger em Paixão à Flor da Pele (2004);
Til Schweiger em A Ciência do Sexo (2001);
Daniel Brühl em 2 Dias em Paris (2007);
Mélanie Laurent em Beije Quem Você Quiser (2002);
Mike Myers em Studio 54 (1998);

posted under Cinema

Email will not be published

Website example

Your Comment: