Tempos de Paz
Teatro Filmado
Fazer um filme baseado numa peça já é complicado. E quando se trata de uma peça basicamente onde dois atores digladiam pela atenção? O texto em questão é de Bosco Brasil e a peça se chama ‘Novas diretrizes para os Tempos de Paz’. No cinema é apenas Tempos de Paz (Idem, 2009) de Daniel Filho, e não esconde sua origem teatral em nenhum momento. Cenários mínimos tornam-se palco para um interessante tete-a-tete entre um agente da imigração – e também ex-torturador – (Tony Ramos) e um imigrante da Polônia que deseja apenas esquecer os horrores da guerra e ter vida nova no Brasil (Dan Stulbach).

A direção de Daniel Filho mira os atores todo o tempo, e associados com bons movimentos de câmera transformam por vezes a experiência em angustiante. Não que se atenha somente a planos fechados, apesar de precisar deles para provocar envolvimento. Na verdade seu foco intimista nos transforma em testemunhas oculares da batalha oral, quase íntimos dos dois.
E quem ganha o embate?
Dramaticamente de longe o polonês de Stulbach está melhor. Transmite uma sinceridade singular, de olhos sempre emotivos. Com uma alegria quase triste e uma tristeza quase feliz, seu monólogo final é mágico. De travar qualquer um. Ramos ainda devia agradecer seu parceiro de cena por levá-lo aos seus melhores momentos, principalmente no finalzinho. Seu personagem tem a vantagem de ter uma marca no juízo, um trauma forte que deveria o favorecer, mesmo com tanta afirmação quanto sua incapacidade de se emocionar. Não faz feio, é verdade, mas perde de longe o combate dramático.

Respectivamente na técnica e produção, fotografia e cenografia se complementam. Juntos compõem um quadro fechado, de cores tristes em tons amarelados. Visivelmente velho, acabado, abandonado pela vida, refletindo os protagonistas e antagonistas. Esse é o clima do porão, do depósito da imigração, numa meia-luz que por vezes fica quase sem iluminação.
O restante do elenco faz praticamente uma figuração. Louise Cardoso, Ailton Graça, Anselmo Vasconcelos, incluindo até Daniel Filho. Caladão e enigmático demais, mas sem efeito dramático algum, nem mesmo diante de uma pretensa revelação. O longa peca em tentar usar a trilha de forma emocional, e até há um flashback (ruim, ruim), só para fazer drama, mas não funciona. À toa.

Tempos de Paz é um teatro (bem) filmado, com categoria, e ganha pontos consideráveis com a atuação irrepreensível de Dan Stulbach. E isso já é suficiente para fazer dele um bom filme. Ao fim, não saia antes da bela homenagem aos estrangeiros-brasileiros que chegaram após a guerra.
NOTA: 7,6
INFORMAÇÕES ESPECIAIS:
O ator, diretor, produtor e roteirista Daniel Filho tem no currículo os sucessos (de público) Se Eu Fosse Você (2006) e Se Eu Fosse Você 2 (2009), o correto A Partilha (2001), o ok A Dona da História (2004), o patético Muito Gelo e Dois Dedos D’Agua (2006), o fraco Primo Basílio (2007) e o divertido O Cangaceiro Trapalhão (1983);
