Dúvida

DUVIDAR É PRECISO?
Você acreditaria na palavra de um padre que sempre pregou o poder da dúvida em nossas vidas? Em Dúvida (Doubt, 2008) de John Patrick Shanley (baseado em sua própria peça vencedora do Pulitzer) testemunhamos de perto um caso de como uma simples dúvida pode mudar a vida de qualquer pessoa.
Estamos na América de 1964. O presidente está morto, o sonho acabou e o racismo ainda sobrevive. São tempos negros, cinzas, sem cores. Mas a igreja ainda influencia e representa boa parte do sentimento da população americana, seja ela em qualquer classe.

Alertada pela inocente irmã James (Amy Adams), a lendária irmã Aloysios (Meryl Streep), duvida que o garoto negro Donald Miller (Joseph Foster) esteja sendo apenas protegido e educado pelo padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) e o que estaria acontecendo seria um caso clássico de pedofilia.
Ele, a carismática figura dentro da paróquia e hierarquicamente superior. Ela, a linha dura que parece ser preenchida apenas com um sentimento irascível de inquisidora. Um combate sensacional capitaneado por atuações fulgurantes de Hoffman e a já eternamente glorificada Streep. Somos adornados ainda com mais duas belas interpretações. Amy Adams brinca (no bom sentido) com a imaturidade de sua personagem e Viola Davis reverbera dramaticidade em poucos, mas preciosos minutos em cena como a mãe negra do garoto. Santas e apaixonantes lágrimas urgem dos seus olhos, refletindo até no mais duro dos espectadores.

Suas cinco indicações ao Oscar não negam suas origens teatrais, sendo texto e atuações as forças da obra. Concorreram o (bom) roteiro adaptado (assinado pelo próprio Shanley) e as atuações de Hoffman (cravando mais uma, aqui como coadjuvante), Streep indicada como atriz (cada vez mais recordista, totalizando 15 indicações), Adams e Davis, com um sentimento de prêmio pelas indicações, ambas como coadjuvante.
Shanley ainda capricha na ausência de cores dos cenários e nas inquietações sem freios que nossa mente pode gerar frente às interrogações. Precisamos mesmo duvidar diante de algo que não é provado? Do que vale sua postura e imagem impecável quando somos colocados à prova? Você crê que uma dúvida pode gerar outra? E outra? Pense de novo.

E Meryl Streep merecia mesmo ganhar mais um Oscar? Merecia sim, mas não levou por causa do peso de duas vitórias anteriores (atriz por A Escolha de Sofia, de 1982, e de coadjuvante por Kramer Vs. Kramer, de 1979) e da forte concorrência (a vencedora Kate Winslet por O Leitor, levou mais pelo sentimento de dívida da Academia do que qualquer outra coisa). Mas não duvide se sua força de atuação nem por um segundo.
NOTA: 8,0
INFORMAÇÕES ESPECIAIS:
Se você gostou de Dúvida outras recomendações:
Meryl Streep em O Diabo Veste Prada (2006), indicada ao Oscar e vencedora do Globo de Ouro;
Philip Seymour Hoffman vencedor do Oscar e Globo de Ouro em Capote (2005);
Amy Adams em Encantada (2007), indicada ao Globo de Ouro;
Viola Davis em Noites de Tormenta (2008);
