janeiro28
OS MELHORES (E PIORES) FILMES DE 2009
A sétima arte é o principal ponto da coluna Script, que escrevo para O Povo On Line (www.opovo.com.br) desde agosto de 2006. Semanalmente resenho filmes em cartaz nos cinemas, e em 2009 busquei também abrir espaço para lançamentos em DVD e Blu-Ray, para quem não vai ao cinema, mas ainda assim não dispensa um bom filme no conforto de sua casa.
O ano de 2009 já foi, mas ainda não o esqueci. Como faço todo ano, publico aqui a lista dos melhores e piores do ano da coluna Script, por Daniel Herculano. Depois de quase 250 filmes na cabeça é chegada a hora de expor aplausos e embaraços mais diversos possíveis, e além da lista também destaco outras recomendações (e não-recomendações). E aproveitem, já que vários deles estão disponíveis nas locadoras.
Sempre lembrando: os elegíveis da lista são longas-metragens, que estrearam comercialmente nos cinemas do Brasil do dia 1 de janeiro até 31 de dezembro de 2009 (não vale mostras especiais ou festivais de cinema), independente do ano de produção dos mesmos. Por isso não estranhe a inclusão de filmes de anos anteriores (que estrearam somente em 2009) e a possível ausência de prováveis indicados e/ou vencedores do Oscar 2010, ainda a estrear.
As listas seguem abaixo:
OS MELHORES FILMES DE 2009

10. Intrigas de Estado (State of Play, 2009) de Kevin Macdonald, é um excelente emaranhado de informações, que envolve (com gosto) política, jornalismo (sobretudo o investigativo), o mundo corporativo e o jogo de interesses que corrói todas as relações do poder. A adaptação de uma minissérie inglesa traz um elenco afiado (Russell Crowe, Ben Affleck, Helen Mirren, Robin Wright), drama e suspense em doses bem distribuídas, perspicaz e de substância crítica. É a prova que ainda existe vida no cinema para cabeças pensantes ou que existem cabeças pensantes que dão vida ao cinema? Como preferirem;

9. Amantes (Two Lovers, EUA, 2008) de James Gray. Joaquim Phoenix declarou que essa seria sua última atuação no cinema. Muita gente não acreditou, e se realmente for vale cada segundo na tela. Na pele de um bipolar controlado que se deixa levar para um relacionamento com a bela e agradável filha do sócio de seu pai (Vinessa Shaw), mas que ao conhecer por acaso sua vizinha (Gwyneth Paltrow), põe em cheque suas escolhas de vida. Parafraseando Zélia Bastos: “inevitavelmente nos faz lembrar que homens não escolhem muita coisa, deixam que a vida e/ou as mulheres o façam por eles”. Um drama romântico humano, simples e cheio de verdades, basta encará-las;
8. Sinédoque, Nova York (Synecdoche, New York, EUA, 2008) é espantoso e auto-referencial. Seu sensacional roteiro que aborda o poder da criação, onde a vida de um autor teatral é representada, adaptada num roteiro em tempo real. Num efeito espelho onde sua vida (e as de quem a habitam, compõem, esbarram ou até mesmo são apenas extras) é uma peça ao vivo, com o teatro, o cinema e a representação da vida, saboreadas indescritivelmente juntas. Estréia na direção de Charlie Kaufman, vencedor do Oscar de roteiro original por Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2005);

7. Distrito 9 (District 9, EUA/Nova Zelândia/África do Sul, 2009) de Neill Blomkamp. Como se fora um apartheid entre alienígenas e humanos, que se enfrentam sem dó nem piedade, num derramamento de sangue impressionante. Aqui não tem nada bonitinho, tudo é sujo e possivelmente real. Se antes eram os negros, agora os atingidos são os Ets, pejorativamente chamados de “camarões” pelos humanos. Ficção pensante, com roteiro corajoso, que tem coragem de falar apenas a verdade: que o seu humano não cansa de ser egoísta, mesquinho, medroso e preso a qualquer tipo de amarras, sejam elas sociais, financeiras ou psicológicas. Indicado ao Globo de Ouro de roteiro;

6. Valsa Com Bashir (Waltz with Bashir/Vals Im Bashi, Israel, 2008) de Ari Folman, nada mais é do que um libelo (psicodélico) pela paz. E espetacular. Com imagens tingidas de dor, mas também cravejadas de criatividade, acompanhamos o próprio diretor em busca da reconstrução de suas memórias. Na tela, as cores, os sons e as imagens nos transportam para um sonho (ou seria pesadelo?) onde parecia ser tudo, exceto a realidade. De arregalar os olhos, de apertar o coração e de arrepiar a alma. Indicado ao Oscar de filme estrangeiro e vencedor do Globo de Ouro;

5. Quem Quer ser um Milionário? (Slumdog Millionaire, Reino Unido, 2008) de Danny Boyle, não é sobre dinheiro, apesar de ter um possível milionário como protagonista. Também não se trata de pobreza, mesmo se passando nas favelas de Mumbai, na Índia. A obra é sobre um milhão de sentimentos e atinge direto ao coração, uma prova de que não ganhou somente vários prêmios pelo mundo (incluindo oito Oscars – filme, diretor…), mas principalmente conquistou a admiração dos espectadores que se entregaram à alegria de acreditar na felicidade novamente;

4. O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008) de David Fincher. Essa superprodução vencedora de três Oscars (Direção de Arte & Cenários, Maquiagem e Efeitos Especiais) não é apenas feita de técnica. Assim como seu protagonista, nasceu para emocionar com sua mágica vida incomum, seja ela do fim até o início ou do início até o fim. Porque não importa onde começa e nem onde termina a viagem. E sim o quê se aprende, e como vivenciamos durante todo o percurso;

3. A Partida (Okuribito/Departures, Japão, 2008) de Yôriro Takita. É um drama de minúcias, e constrói suas emoções assim como os orientais elaboram todo e qualquer tipo de trabalho, com cuidado, carinho e atenção. Tachado de surpresa, venceu o Oscar de filme estrangeiro em 2009, mas é tão espetacular onde até uma pedra é capaz de emocionar. A pedra-carta em questão traz lembranças à tona, encharcados de sentimentos antes perdidos no tempo. Ao assistir é como se fôssemos acariciados com o conjunto de belíssimas imagens e trilha sonora, capazes de repensar a vida, redescobrir alegrias e desenterrar sentimentos;

2. Bastardos Inglórios (Inglorius Basterds, EUA/Alemanha, 2009) de Quentin Tarantino. A Segunda Guerra Mundial é campo para destilar sua violência cômica. Não é história, é cinema. Maiúsculo e dos bons, como há algum tempo não se via. Concorreu à Palma de Ouro em Cannes, mas levou o prêmio de melhor ator para Christoph Waltz, o soberbo vilão. Brad Pitt está ótimo, armado de bigodinho retrô-brega, faca e metralhadora. Indicado ao Globo de Ouro de filme (drama), ator coadjuvante (Waltz – que venceu), direção e roteiro (Tarantino), deve emplacar também indicações ao Oscar;

1. Avatar (Idem, EUA, 2009) de James Cameron. Preparados para uma viagem inesquecível? Bem vindos à Pandora. Uma ficção científica de revoluções por minuto, provando mais uma vez que quando sentamos numa poltrona de cinema podemos viajar para outros mundos. E mesmo irreal, transforma aquele momento na coisa mais crível do mundo. Épico (tridimensional) por natureza, é uma experiência obrigatória em 3D, pois foi feito especialmente para ser visto em 3D. Apto até de mudar a sua percepção de ver cinema. Cinema de verdade! Ah, e Pandora é também a coisa (irreal) mais linda que já surgiu numa tela de cinema. Venceu os Globos de Ouro de filme (drama) e direção (James Cameron) e já desponta como favorito nas indicações ao Oscar;
Dupla Menção Honrosa:

O Lutador (The Wrestler, EUA/França, 2008) de Darren Aronofsky tem estilo documental e sem os arroubos visuais vistos anteriormente em suas obras, mas é um nocaute sentimental para quem assiste. Não é piegas, nem dramalhão. Apenas é vida sem poesia, gente de carne, osso e lágrimas em estado bruto. A história de glória, o destempero e a derrocada de Mickey Rourke (indicado ao Oscar) cruza um pouco com a trama arrebatadora do próprio drama que venceu o Leão de Ouro em Veneza;

Eu Te Amo, Cara (I Love You, Man, EUA, 2009) de John Hamburg. Quem nunca quis ter um melhor amigo de todas as horas? Paul Rudd vai casar e descobre que não tem esse cara na sua vida. Mas encontra no sensacional Jason Segel. Fãs do Rush eles fazem jams (“Slapping the Bass!” – Dedilhando meu baixo!), bebem todas, conversam bobagens, falam sobre seus problemas e passam bons momentos juntos! Parece simples, mas é apenas isso é necessário para fazer uma amizade verdadeira, as pequenas e significativas coisas. Comédia inteligente, trilha sonora afiada e química perfeita no duo central. Tenho certeza que muitos se identificaram com a amizade verdadeira dos dois;
Outras recomendações (sem ordem de preferência): Gran Torino (Idem, EUA, 2009) de Clint Eastwood; Star Trek (Idem, EUA, 2009) de J.J. Abrahams; É Proibido Fumar (Idem, Brasil, 2009) de Anna Muylaert; Anticristo (Antichrist, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/Polônia, 2009) de Lars Von Trier; Te Amarei Para Sempre (Time Traveler´s Wife, EUA, 2009) de Robert Schwentke; Simplesmente Feliz (Happy-Go-Lucky, Reino Unido, 2008) de Mike Leight; Se Beber, Não Case! (The Hangover, EUA, 2009) de Todd Phillips; Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, EUA/Reino Unido, 2009) de David Yates; Arraste-me Para o Inferno (Drag me to Hell, EUA, 2009) de Sam Raimi; Desejo & Perigo (Se, Jie/Lust, Caution, EUA/Taiwan/China/Honk Kong, 2007) de Ang Lee; Menção dupla: Up – Altas Aventuras (Up, EUA, 2009) de Pete Docter & Bob Peterson; Inimigos Públicos (Public Enemies, EUA, 2009) de Michael Mann;
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OS PIORES FILMES DE 2008:
1. Veronika Decide Morrer (Veronika Decides to Die, 2009), de Emily Young, adaptação do livro de Paulo Coelho. Ensaia um drama pesado sobre uma tentativa de suicídio, mas termina como uma bobagem (quase televisiva) em estado terminal. Tão simplista que se torna moribundo, já morreu e teima em não ser enterrado – ou chegar ao fim;
2. Noivas em Guerra (Bride Wars, EUA, 2009) de Gary Winick. É uma comédia. Mas completamente sem graça. Qual é a vantagem de ver duas belas mulheres se pegando para saber quem vai casar primeiro? Guerra de bolo, cabelo pintado, bronzeamento artificial, gritaria e puxões de cabelo dão o tom do vexame para Kate Hudson e Anne Hathaway;
3. Transformers – A Vingança dos Derrotados (Transformers – Revenge of the Fallen, EUA, 2009) de Michael Bay é como um cano de descarga furada de uma lata velha: faz muito barulho, tira nosso juízo e ainda prejudica o meio ambiente. Sem combustível (ou sem sentido?) e com o pneu furado (ou seria o roteiro?) fica no meio do caminho, sem destino entre uma história que quer (ou tenta) justificar origens, batalhas, vingança… Mero pretexto para uma explosão a cada 30 segundos num interminável longa de duas horas e meia!;
4. G.I. Joe: A Origem de Cobra (G.I. Joe: The Rise of Cobra, EUA/República Tcheca, 2009) de Stephen Sommers, leva às telas os brinquedos da Hasbro (antigos Comandos em Ação) sem nenhum brilho, que de tão fraco caberia até uma soneca, se não tivesse tanto barulho. Diluído entre bordões militares e flashbacks explodindo em clichês, não vale nem de brincadeira;
5. O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA/Canadá, 2007) de Scott Derrickson. Uma terrível refilmagem do clássico B, de 1951, de mesmo nome, no qual a mensagem de paz (e ecos de guerra-fria) é substituída por um conteúdo tão oco quanto um pastel de vento. Se você é fã de Keanu Reeves, aprecia a beleza (e o talento) de Jennifer Connelly ou adora efeitos especiais, estas parecem ser as únicas desculpas (estúpidas) para arriscar isso aqui;
6. Marido por Acaso (Accidental Husband, EUA/Reino Unido, 2008) de Griffin Dunne, é uma comédia romântica que apesar de Uma Thurman, é uma tremenda perda de tempo. Roteiro que abusa de piadas físicas e coloca a loira numa tremenda roubada ao desfazer o noivado por causa de um mal entendido no seu programa de rádio. Mal editado, cheio de furos e com problemas de tom (escorrega na comédia e não acerta no romance), não indico nem por acaso;
7. Austrália (Idem, EUA/Austrália, 2008) de Baz Luhrmann. No início um clima tosco de comédia física toma conta da apresentação histérica dos personagens. Depois nos vemos no meio de um western implausível. Não terminou, porque entra em cena a sedução, ah o romance-chavão. Continua como um drama de guerra, e a emoção barata é o grande trunfo, acredite. Um novelão australiano que conjuga todas as características do kitsch;
8. Anjos da Noite – A Rebelião (Underworld: Rise of the Lycans, EUA/Nova Zelândia, 2009) de Patrick Tatopoulus. A série nunca foi lá grande coisa e nessa pré-continuação chegou ao fundo da tumba! Vexame para o vampiro-mor de Bill Nighy, o lobisomen de Michael Sheen (fazendo pose de fortão) e a vampirinha safada de Ronha Mitra (de lábios arrebatadores!). Ainda temos defeitos especiais e uma fotografia tão escura que é um breu só, mas que serve pelo menos para esconder tanta porcaria na tela;
9. Besouro (2009) é estréia decepcionante do premiado publicitário João Daniel Tikhomiroff. Os pontos altos são seus combates coreografados no ar, com o elenco puxado por cabos. Mas se apenas lutas nos céus e coreografias de capoeira fossem capazes de fazer uma obra no mínimo divertida, tudo seria ótimo. Capaz de fazer pouco mais de uma hora e meia demorar meio século, a obra de ação brasileira voa com o destino ao esquecimento, e de tão raquítica, bem que poderia se chamar apenas mosquito;
10. Empatados, as continuações nacionais, que mesmo com um sucesso de público gigantesco, não passam de filmes formulaicos (e fraquinhos):
Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas (2009), de José Alvarenga Jr., não é exatamente cinema. Está mais para um conjunto de quadros do extinto programa de TV que lhe deu origem. E menos inspirado que costumeiramente era tanto na própria TV, quanto no divertido primeiro longa;
Se Eu Fosse Você 2 (2009) é apenas a repetição da fórmula de seu antecessor… Com suas incontáveis repetições de piadas (quase cópias de antigas comédias americanas) e clichês do gênero troca de corpos e comédias de situações. E ao que parece (infelizmente) não vai parar por aqui;
Menção Desonrosa:
Lua Nova (New Moon, EUA, 2009) de Chris Weitz, não é um filme e sim uma febre, uma doença encharcada de romantismo (inócuo) e dilemas adolescentes diluídas numa trama sem gosto. Tão saborosa quanto um miojo ensangüentado, coisa que nem os vampirinhos bobinhos da trama são capazes de provar. Não tinha como ser pior que Crepúsculo, pelo conjunto de fatores, mas ainda é uma tremenda perda de tempo, onde roteiro infantil e atuações ruins nos dão a dimensão do quanto industrializados podem ser a literatura, o cinema, seus subprodutos e por consequência seu público;
Não recomendados (sem ordem de não preferência): The Spirit – O Filme (The Spirit, EUA, 2008) de Frank Miller; Força Policial (Pride & Glory, EUA, 2008) de Gavin O´Connor; Heróis (Push, EUA/Reino Unido/Canadá, 2009) de Paul McGuigan; Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, EUA, 2009) de Marcus Nispel; Território Restrito (Crossing Over, EUA, 2009) de Wayne Kramer; Dia dos Namorados Macabros 3D (My Blood Valentine 3D, EUA, 2009) de Patrick Lussier; Jogo Entre Ladrões (The Code/Thick as Thieves, EUA/Alemanha, 2009) de Mimi Leder; 17 Outra Vez (17 Again, EUA, 2009) de Burr Steers; O Leitor (The Reader, EUA/Alemanha, 2008) de Stephen Daldry; 2012 (EUA, 2009) de Roland Emmerich;
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*Daniel Herculano é estudante de Jornalismo. Crítico de cinema formado em cursos com Pablo Villaça (Cinema em Cena), Ruy Gardnier (Jornal O Globo/Contracampo) e Joaquim Assis (Roteirista). Graduado em Comunicação Social, é publicitário, produtor musical e assessor de comunicação. Atualmente escreve sobre cinema para a Revista O Grito (www.revistaogrito.com) de Recife-PE, e assina a coluna Listas em Cena no site Cinema em Cena (www.cinemaemcena.com.br);